ARTE MODA DEMI-COUTURE

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

EtnoGráficos



Modelo: Lívia Soares
Fotos: Luiz Braga

A Arte Étnica é uma das minhas maiores paixões. A capacidade que os povos tradicionais têm de transformar em objetos de arte tudo o que utilizam no seu dia a dia, de armas a utensílios domésticos, me fascina. Talvez por isso a arte utilitária seja a minha modalidade favorita. Guardei na memória uma imagem que vi aos 10 anos de idade, na Revista 70, de dois índios Xikrin Kayapó  entrelaçando seus corpos pintados. Esta matéria foi reeditada pela revista Mag! nº 4, quando fiquei sabendo que as imagens são da fotógrafa Cláudia Andujar "suíça de nascimento e brasileira por opção" Tenho certeza que estas imagens sempre guiaram meu olhar, mesmo inconscientemente.
Depois, em 1986, quando cheguei em Gorotire, aldeia Kayapó do sul do Pará, para uma temporada de 1 ano de trabalho de campo*, tive um impacto visual absurdo quando vi as crianças nuas, inteiramente pintadas e com as pesadas bandoleiras de missangas azuis ultramar intenso e vermelho primário. Durante os 9 anos que passei coletando dados de etnobiologia em campo, fiz uma pesquisa paralela sobre a pintura corporal, os grafismos e adornos dos Kayapó. Fiz e faço ainda um estudo comparativo com outras etnias e povos tradicionais não só amazônicas e brasileiras, mas também  aborígenes, africanos, os Povos Vermelhos (índios americanos e mexicanos), esquimós, e pré-históricos.
Desta inspiração é que surgiram os trabalhos de pintura sobre seda e tule stretch que mostro nestas fotos. São pinturas corporais  Kayapó, grafismos Assurini, pintura corporal e desenhos Mehináko e pintura corporal Kadiwéu. Para reproduzir as pinturas corporais em combinaisons de tule stretch, passei alguns anos pesquisando várias tintas até encontrar uma que tivesse a elasticidade ideal para dar o efeito de pintura sobre a pele. Os indios Kayapó, Assurini e Kadiwéu utilizam a tinta feita com jenipapo e carvão sobre a pele do corpo e urucu para o rosto.Os Kayapó pintam de urucu os pés e mãos também. Os Mehináko uttilizam o carvão em todo o corpo e, por cima,  traçam grafismos com tabatinga (barro branco) e urucu.
Todas as vezes em que tive oportunidade de mostrar esse trabalho para os Kayapó, eles demonstraram uma alegria genuína em ver sua "identidade gráfica" retratada com autenticidade e respeito. Cada nação tem suas insígnias de identificação como a pintura corporal, o corte de cabelo, adornos e cocares. Faço questão de divulgar minha fonte de inspiração e combato a tendência existente entre a maioria dos brasileiros em referir-se às diversas nações e etnias indígenas de forma genérica, como "índios".

Serei sempre profundamente grata aos Kayapó Gorotire por tudo que me ensinaram e por terem me acolhido como um dos seus; e especialmente grata ao meu "pai Kayapó", o xamã Bepto Poop, que me "reconheceu" assim que viu e me deu o belo nome de Irê-Á, do qual tenho muito orgulho.

* Projeto Kayapó: Criado e coordenado pelo antropólogo americano Darrell Posey dos anos 70 aos anos 90, o Projeto Kayapó reuniu em pesquisa interdisciplinar,cientistas que estudaram a relação do povo Kayapó com a meio ambiente, nas áreas de etno farmacologia e medicina, agricultura, manejo de caça e alimentação, etnoastronomia e etnobotânica.  - Trabalhei no PK como agente de campo na Aldeia Goroti-re, sul do Pará, de 1986 a 1995.

1 comentários:

Cassius Martins disse...

Amei,vc é um luxo!!!!